Nas eleições de 2026, a inteligência artificial pipocou nos planos de governo. O termo foi citado pelos candidatos em propostas que vão da saúde à segurança. E uma proposta une a direita, a esquerda e o centro: o uso de IA no Sistema Único de Saúde (SUS).
Sem muitos detalhamentos e integrando os planos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a Flávio Bolsonaro (PL), o uso da tecnologia é proposto para triagem e auxílio de diagnósticos.
Um dos exemplos é utilizar a IA para substituir a tradicional fila por ordem de chegada, implantando uma triagem orientada por algoritmos.
Ou seja, a vez de um paciente passaria a ser avaliada por uma IA com base em fatores como gravidade e risco de progressão da doença.
Em seu programa, Flávio Bolsonaro promete usar inteligência artificial para agilizar o agendamento de consultas e exames e como apoio à prevenção.
Ou seja, a vez de um paciente passaria a ser avaliada por uma IA com base em fatores como gravidade e risco de progressão da doença.
Em seu programa, Flávio Bolsonaro promete usar inteligência artificial para agilizar o agendamento de consultas e exames e como apoio à prevenção.
“O sistema poderá identificar quem corre maior risco de adoecer e chamar essa pessoa para se cuidar a tempo, em vez de esperar que ela chegue ao pronto-socorro quando já é grave”, diz o plano do candidato.
Lula afirma que quer aprimorar “ainda mais a regulação do acesso à atenção especializada”, para garantir maior transparência das filas e utilizar inteligência artificial, “com fila única digital e ordenada pelo risco clínico”.
Já Renan Santos (Missão) propõe a substituição do atual modelo de fila cronológica e cita diretamente uma plataforma de El Salvador criada pelo governo Bukele.
“Temos um programa de integração entre saúde e tecnologia, inspirado parcialmente no que foi operacionalizado em El Salvador, por meio do DoctorSV. O sistema deverá oferecer integração entre laboratórios, farmácias e centros de imagem com triagens”, diz trecho do livro que reúne suas propostas.
Proposta por todos os espectros políticos, a adoção de IA na gestão da saúde é inevitável, diz Alexandre Chiavegatto Filho, professor de inteligência artificial na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Ele aposta que a área vai ser a maior beneficiária da inteligência artificial.
Chiavegatto, que coordena o Laboratório de Big Data e Análise Preditiva da instituição, afirma que existe potencial de uso desde o primeiro contato do paciente com o sistema de saúde até a alta, principalmente no auxílio do diagnóstico.
“Os fatores que levam uma pessoa a ter um problema grave de saúde, ou até mesmo ir a óbito, normalmente são interações complexas, e é exatamente nisso que esses algoritmos funcionam tão bem”, diz.
“Os fatores que levam uma pessoa a ter um problema grave de saúde, ou até mesmo ir a óbito, normalmente são interações complexas, e é exatamente nisso que esses algoritmos funcionam tão bem”, diz.
Um dos potenciais da IA que mais anima Chiavegatto é a possibilidade de ampliar o acesso a especialistas em regiões onde eles são escassos. Seu laboratório desenvolve algoritmos que aprendem com dados de pacientes brasileiros e podem auxiliar profissionais de saúde em locais mais remotos.
Mas há outros especialistas que não são tão otimistas quanto Chiavegatto.
Wagner Meira Jr., professor do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisador do Centro de Inovação em Inteligência Artificial para Saúde, pesquisa aplicações de IA no diagnóstico, tratamento e organização dos serviços de saúde. Ele considera que as propostas apresentadas pelos candidatos são, em alguns casos, futuristas.
“Dificilmente se realizam em quatro anos de governo”, diz. Para ele, a inteligência artificial tem obtido melhores resultados em situações “mais contidas e bem definidas”, como a análise de exames. “Quanto menos específico o caso é, e quanto mais bem delimitado, mais a IA tem sucesso”, afirma.
Meira Jr. chama atenção para um problema central da proposta de usar algoritmos para reorganizar as filas: a capacidade de atendimento. Segundo ele, não basta mudar a ordem dos pacientes se a quantidade de profissionais e serviços disponíveis continuar a mesma.
“Para você conseguir uma melhoria da fila, antes de qualquer coisa, você tem que aumentar o número de atendentes na fila. Depois você pensa em como vai priorizar a fila. Se você simplesmente mudar a posição das pessoas e continuar com a mesma restrição de capacidade, não vai melhorar muita coisa.”
“Para você conseguir uma melhoria da fila, antes de qualquer coisa, você tem que aumentar o número de atendentes na fila. Depois você pensa em como vai priorizar a fila. Se você simplesmente mudar a posição das pessoas e continuar com a mesma restrição de capacidade, não vai melhorar muita coisa.”
Outro obstáculo, segundo o pesquisador, é a própria qualidade dos dados disponíveis no SUS. Grande parte das informações existentes é formada por registros administrativos, produzidos originalmente para fins de faturamento, explica o professor.
“Ou seja, esses dados, na verdade, foram usados para pagar um prestador de serviço, em sua maior parte, e não necessariamente para serem usados do ponto de vista clínico. São dados muito ricos. Mas são muito limitados para toda essa gama de cenários”, diz.
Segundo o Ministério da Saúde, não existe hoje um número nacional consolidado de quantas pessoas aguardam atendimento no SUS. Isso porque a gestão das filas de cirurgias, consultas e exames é de competência de Estados e municípios, e até pouco tempo atrás eles não eram obrigados a enviar essas informações ao governo federal.
“Ou seja, esses dados, na verdade, foram usados para pagar um prestador de serviço, em sua maior parte, e não necessariamente para serem usados do ponto de vista clínico. São dados muito ricos. Mas são muito limitados para toda essa gama de cenários”, diz.
Segundo o Ministério da Saúde, não existe hoje um número nacional consolidado de quantas pessoas aguardam atendimento no SUS. Isso porque a gestão das filas de cirurgias, consultas e exames é de competência de Estados e municípios, e até pouco tempo atrás eles não eram obrigados a enviar essas informações ao governo federal.
Para tentar resolver essa lacuna, a pasta publicou uma portaria em 2025 que passa a exigir o envio periódico e padronizado desses registros à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS). A medida, porém, ainda está em fase de implementação.
A única fonte de dados que o Ministério consegue oferecer hoje é o Sisreg, sistema de regulação usado para agendar consultas e procedimentos — mas que não é adotado por todos os municípios do país, o que o próprio governo reconhece que não representa a totalidade do território nacional.
A única fonte de dados que o Ministério consegue oferecer hoje é o Sisreg, sistema de regulação usado para agendar consultas e procedimentos — mas que não é adotado por todos os municípios do país, o que o próprio governo reconhece que não representa a totalidade do território nacional.
Na prática, isso significa que uma IA pode não ter informações suficientes para determinar, para qualquer especialidade, qual paciente deveria ser priorizado.
“O problema não é nem a quantidade de coisas que você vai ser capaz de resolver [com a IA], que pode até ser um bom número. O problema é o falso negativo”, diz Meira Jr.
“O problema não é nem a quantidade de coisas que você vai ser capaz de resolver [com a IA], que pode até ser um bom número. O problema é o falso negativo”, diz Meira Jr.
Em sistemas de saúde, explica o especialista, um falso positivo pode gerar exames ou tratamentos desnecessários e aumentar os custos. Mas um falso negativo pode deixar de identificar justamente quem precisava de atendimento.
“O falso positivo é ineficiência, vai pegar custo e vai ser desperdiçado”, afirma. “Agora, o falso negativo é o complicado. Com um falso negativo, você pode matar alguém.”
“O falso positivo é ineficiência, vai pegar custo e vai ser desperdiçado”, afirma. “Agora, o falso negativo é o complicado. Com um falso negativo, você pode matar alguém.”
Por isso, Meira Jr. diferencia o uso da tecnologia para organizar recursos do uso da IA para tomar decisões clínicas.
Na primeira categoria, ele vê aplicações mais imediatas, como identificar profissionais disponíveis, distribuir consultas e aproveitar estruturas que estejam ociosas.
“O uso em aspectos logísticos, administrativos, eficiência do sistema de saúde é uma coisa razoável”, afirma.
Na primeira categoria, ele vê aplicações mais imediatas, como identificar profissionais disponíveis, distribuir consultas e aproveitar estruturas que estejam ociosas.
“O uso em aspectos logísticos, administrativos, eficiência do sistema de saúde é uma coisa razoável”, afirma.
Por exemplo, uma possibilidade seria combinar sistemas de saúde de diferentes regiões para aproveitar consultas disponíveis.
“Se eu sei que tenho teleconsultas vagas em São Paulo e tenho gente precisando de teleconsulta na Amazônia, então a IA poderia escalonar essa pessoa para ser atendida por teleconsulta, seria mais rápido do que esperar meses para ser atendida presencialmente.”
Já a utilização da tecnologia para decidir quem deve ou não receber determinado tratamento envolve riscos diferentes. Para o cientista, o problema passa também por questões éticas e por definir quem será responsabilizado quando uma decisão automatizada der errado.
“Se eu sei que tenho teleconsultas vagas em São Paulo e tenho gente precisando de teleconsulta na Amazônia, então a IA poderia escalonar essa pessoa para ser atendida por teleconsulta, seria mais rápido do que esperar meses para ser atendida presencialmente.”
Já a utilização da tecnologia para decidir quem deve ou não receber determinado tratamento envolve riscos diferentes. Para o cientista, o problema passa também por questões éticas e por definir quem será responsabilizado quando uma decisão automatizada der errado.
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Matéria original publicada em Rondoniaqui News







