O pagodão baiano ganhou espaço na programação do primeiro dia do Folianópolis, em Florianópolis, nesta sexta-feira, 30. À frente do Psirico, Márcio Victor foi uma das atrações da micareta, que reúne artistas da música baiana em uma programação de trios elétricos. Além da passagem pelo evento, o cantor vive um momento especial na carreira com a indicação do álbum Molho Lambão ao Grammy Latino 2026.
Em entrevista exclusiva à CARAS Brasil, o artista falou sobre a expectativa de participar da cerimônia internacional, a responsabilidade de representar a música produzida nas periferias da Bahia e o significado do reconhecimento para a trajetória do pagodão. Entusiasmado com a possibilidade de conquistar o troféu, ele revelou que já está com os preparativos para a viagem encaminhados e promete um figurino com identidade brasileira.
“Claro que eu vou! Passagem comprada, hotel reservado, roupa linda. Eu vou lindo, viu? Eu vou lindo! Preparem-se, artistas internacionais, porque vou chegar lá com a representatividade do meu povo, vestindo uma roupa linda, feita aqui pela galera do Brasil. A gente vai chegar lá arrasando tudo!”, afirmou.
Um marco para o pagodão baiano
A indicação também representa, para Márcio Victor, uma oportunidade de ampliar o espaço da música popular baiana em uma das principais premiações internacionais. O cantor destacou que sua expectativa vai além de uma conquista individual ou da banda: ele deseja que o reconhecimento alcance os artistas e as comunidades que ajudaram a construir a identidade do gênero musical.
“Isso vai ser um marco, porque a música das ruas entra e faz parte de uma das premiações mais importantes do mundo, que é o Grammy. A gente vai mostrar a beleza das ruas da Bahia lá em Las Vegas, na premiação, onde o mundo inteiro olha para isso. Então, para mim, têm sido dias de muita felicidade e ansiedade. Estou muito feliz e ansioso, mas já sou grato a todos que estão torcendo e a todos que estão comemorando, pelo menos, a indicação”, declarou.
O artista também ressaltou o sentimento de reconhecimento ao ver a música produzida na Bahia ganhar visibilidade internacional. Para ele, a nomeação do projeto representa uma conquista coletiva, especialmente para quem construiu a história do pagodão longe dos grandes centros da indústria musical.
“É merecido demais que todo esse povo da Bahia, esse povo do Brasil, esteja sendo observado pelo Grammy. Eu estou grato e ainda vivendo esse sonho, porque a gente sempre sonhou que um dia fosse observado pela dedicação e pelas pesquisas que fazemos até chegar ao som do Psirico”, celebrou.

‘Molho Lambão’ e a valorização das raízes
Por trás da indicação está um trabalho que, segundo Márcio Victor, exigiu uma construção cuidadosa, desde a escolha dos ritmos até a definição dos timbres. O cantor descreveu o processo de criação do álbum como uma espécie de laboratório musical, no qual a pesquisa e a experimentação foram fundamentais para preservar a identidade do grupo e apresentar novas possibilidades para o pagodão.
“É todo um processo, um verdadeiro trabalho de laboratório. A gente pesquisa os ritmos, os timbres e entrega ao nosso povo, ao nosso público, o melhor sempre que se dispõe a fazer um álbum. A gente sabe que o título de um álbum tem uma história e que ele representa a identidade da banda. Graças a Deus, temos uma discografia com músicas que estão no coração do povo, desse povo mais simples, que realmente representa a raiz do meu Brasil”, explicou.
Outro cuidado do projeto foi reunir artistas que compartilham uma relação direta com a história do gênero. Márcio Victor contou que fez questão de convidar cantores que vieram das periferias e que, assim como ele, construíram suas trajetórias a partir da música das ruas. A intenção era proporcionar uma participação verdadeira, com envolvimento desde os primeiros contatos com as canções.
“Fiz questão de mostrar os cantores do pagodão que vieram do gueto, assim como eu, que são sonhadores como eu e que, muitas vezes, já não estavam recebendo a atenção que mereciam. Eu não queria simplesmente apresentar as músicas a eles pelo WhatsApp. Queria sentir a reação de cada um ao ouvir a canção pela primeira vez. Chamei todos para minha casa, na Praia do Forte, para ouvirem e gravarem. Todos se encantaram, e foi muito bacana. Até fizemos vídeos mostrando esses momentos para o público”, contou.
Mulheres negras e memória do pagodão
Entre as faixas que mais representam o cantor estão Melanina Black e Memórias Desbloqueadas. A primeira carrega uma mensagem de valorização das mulheres negras e reúne referências musicais que aproximam o pagodão baiano da ancestralidade afro-brasileira. O trabalho também promove o encontro com o Ilê Aiyê, por meio de uma combinação de percussões que, segundo o artista, trouxe uma nova dimensão sonora à composição.
“Uma delas é Melanina Black, porque fortalece algo que sempre esteve presente no meu canto: falar bem das mulheres, principalmente das mulheres pretas, que sofrem racismo e não têm tantas oportunidades quanto outras pessoas na vida. A música também tem essa força pela percussão. Juntei o pagodão raiz à percussão do Ilê Aiyê, que é um bloco altamente ligado às nossas raízes. Essa mistura resultou em um ritmo sofisticado. Temos O Kannalha, que canta melodias com letras que levam mensagens para as mulheres e interpreta a canção de uma forma linda”, destacou.
Já Memórias Desbloqueadas resgata diferentes momentos da história do gênero e aproxima artistas de gerações distintas. A faixa reúne Poder Dang, Saiddy Bamba, Bob Na Voz e Banda Selakuatro, nomes que, para Márcio Victor, representam diferentes capítulos da construção do pagodão baiano.
“Já Memórias Desbloqueadas traz a lembrança de tudo o que vivi e de todos que fizeram parte da história do pagodão. A música reúne esses cantores e traz a verdadeira força do nosso movimento. Conta a história de pessoas que viveram nos lugares e nos espaços que escreveram e continuam escrevendo a nossa trajetória”, afirmou.
Ao falar sobre o significado das duas composições, o cantor reforçou que a representatividade presente no álbum está diretamente ligada às histórias que ajudaram a construir sua carreira e à intenção de preservar a memória de quem abriu caminhos para as novas gerações.
“Essas duas músicas têm um significado muito importante para mim. Memórias Desbloqueadas, com Xande, tem seu lugar. A música com O Kannalha e Canário também tem seu lugar. Mas essas duas canções realmente me marcam nessa história, por toda essa força e representatividade”, concluiu.

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Fonte: Revista Caras






